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domingo, 24 de julho de 2011

Sincretismo quer dizer...


 
 Sincretismo quer dizer a combinação de diversos princípios e sistemas; ecletismo; amálgama de concepções heterogêneas.
É o somatório de diferentes filosofias que geram uma igualdade. Entendemos que a Umbanda por ser sincrética em seu nascimento e formação, apresenta a disposição de convergir para pontos em comuns o que se apresenta sob diversas formas e nomes em todas as outras religiões do planeta. A contrário da opinião de zelosos religiosos, isto não a enfraquece doutrinariamente, não conspurca uma falsa pureza que outras religiões afirmam possuir e não a deixa menor do que qualquer culto ou doutrina mediúnica. Há que se comentar que a diversidade é da natureza universal e nada é igual no cosmo, nem mesmo as folhas de uma mesma árvore. Assim, Umbanda se apresenta como a mais universalista e convergente das religiões existentes no orbe na atualidade.
Não poderíamos deixar de comentar o preconceito que ainda existe em relação à raça negra, particularmente a tudo que é oriundo da África *, o que se reflete irremediavelmente na passividade mediúnica, advindo as proibições descabidas e os conflitos que não levam a lugar algum. Este atavismo também se impregna nos homens que estão na Umbanda, afinal não somos melhor que ninguém. Especialmente quanto a origem africana da Umbanda - também temos a origem indígena e branco judaico-católico-espírita -, lamentavelmente persistem os ranços na busca de "pureza" doutrinária, como se tudo que viesse do continente africano seja de um fetichismo sórdido e da mais vil magia negativa. Isto não é procedente e temos que ser fiéis a verdade que está próxima de nossa história recente e anunciação da Umbanda na Terra. Se não fossem os africanos não teríamos a força e a magia dos Orixás hoje no movimento umbandista, embora saibamos que em muitas outras culturas estes conhecimentos se manifestaram, inclusive entre nossos índios e voltando no tempo chegamos até os primórdios das civilizações mais antigas do planeta. Sendo fiéis a nossa historicidade, sem sobra de dúvidas, foram os africanos no interior das senzalas insípidas e inodoras que inteligentemente sincretizaram os Orixás com os santos católicos perpetuando-os em berço pátrio até os dias atuais.
Vamos resgatar um pouco desta origem, digna de todo nosso respeito e veneração.  Na época da escravidão, houve um sincretismo afro-católico, principalmente nas áreas rurais da Bahia e do Rio de Janeiro, denominado Cabula. Segundo pesquisas de historiadores, refere-se aos rituais negros mais antigos, envolvendo imagens de santos católicos sincretizados com os Orixás, herança da fase reprimida nas senzalas dos cultos africanos, onde os antigos sacerdotes mesclavam suas crenças e culturas com o catolicismo para conseguirem praticar e perpetuar sua fé. Quando no final do século XIX ocorre a libertação dos escravos, a Cabula já era amplamente presente como atividade religiosa afro-brasileira. Este sincretismo foi mantido após a anunciação da Umbanda em 1908 pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas. No Rio de Janeiro de então e antes da origem oficial da Umbanda, eram comuns práticas afro-brasileiras similares ao que hoje ainda se conhece como Cabula e Almas e Angola. Cremos que o surgimento da Umbanda forneceu as normas de culto para uma prática ritual mais ordenada, orientada para o desenvolvimento da mediunidade e na prática da caridade com Jesus em auxílio gratuito a população pobre e marginalizada do início do século passado.
No presente, podemos afirmar que é majoritária a presença dos Orixás na prática doutrinária da Umbanda, inclusive cada vez mais crescendo o culto com as imagens simbólicas em formas originais africanas, também pelo fato que o entendimento da reencarnação indica à coletividade umbandista  que muito dos santos católicos podem ter reencarnado.
Como dirigente fundador de um terreiro de Umbanda - Choupana do Caboclo Pery-, e de acordo com meus compromissos cármicos com os amigos do lado de lá, fomos orientados a cultuarmos os Orixás na forma africana, em se tratando de imagens para apoio visual a nossa adoração. Não temos nada contra quem cultua diferente e convivemos harmoniosamente com a diversidade universalista da Umbanda. Dias destes, um médium apreensivo chega para Caboclo Pery e diz de sua preocupação pelo fato de estarem falando que a "nossa" Umbanda é africanista, coisa de "macumbeiro", pelo fato de termos Oxalá, Nanã e Ossanhã  no congá e demais Orixás africanos no templo, e que isto não era Umbanda, conforme estavam dizendo. O Caboclo na sua objetividade e calma peculiar aponta com o indicador para a imagem de um preto velho de terno branco que tem no altar e inicia o seguinte diálogo com o aflito aparelho mediúnico:
- Este aqui pode?
- Sim.
- Por quê?
- Este preto velho está usando um terno, o que significa que ele foi alforriado, pois se fosse escravo não poderia. Logo, deve ser brasileiro e não africano.
- O preto velho do Congo que tu trabalha é africano ou nasceu no Brasil?
- Não sei dizer.
- Isto tem importância para você fazer a caridade com ele?
- Não.
- Meu filho, não perca tempo com os preconceitos das pessoas, pelo que dizem ou não. Olha para dentro do teu coraçãozinho e aprende com as entidades que te assistem. Verticaliza teu orgulho, desce do pedestal e te iguala aos outros te permitindo ver quem está ao teu lado te assistindo. Enxerga o que é feito dentro deste humilde terreiro e conclui se há algo que contraria os desígnios maiores do Cristo, que estão em todas as raças deste planeta tão judiado pelas emanações mentais dos homens. As raças foram criadas para que vocês consigam se libertar da superioridade uns com outros. Inevitável que encarnarão em todas para aprenderem que as diferenças somam e não separam na igualdade maior de Deus; o amor incondicional para com todas as sua criações, livre de nomes e formas. Vai, abaixa a tua cabeça que as trombetas da caridade estão soando, não temos mais tempo para a orgulhosa soberba racial, que tanta guerra fratricida religiosa ainda causa na crosta.

Escrito por Norberto Peixoto
revista     Orixás na Umbanda

sábado, 4 de junho de 2011

Junho é o mês de Xangô

Divindade do fogo e do trovão e da justiça. Rei de Oyó. Tem grande importância nos segmentos do candomblé com origem em terras Yorubá, importância esta representada pelo seu instrumento sagrado chamado Xére - que é tratado e visto com grande respeito por qualquer aborixá (adorador de orixá).

XANGÔ é um Orixá temido e respeitado, é viril e violento, porém justiceiro, e muito vaidoso. Xangô era muito atrevido e violento, porém, grande justiceiro, sempre castigando os ladrões e malfeitores. Por este motivo diz-se que quem teve morte por raio, ou sua casa, ou negócio queimado pelo fogo, foi vítima da ira ou cólera de Xangô.

Seu símbolo principal é a machada de dois gumes ou dupla (Oxê). Tudo que se refere a estudos, as demandas judiciais, ao direito, contratos, documentos trancados, pertencem a Xangô, Rei de Oyó, marido de Oyá, Oxum e Oba. Sua saudação é Caô Cabiecilê!

Os filhos de Xangô são extremamente enérgicos, autoritários, gostam de exercer influência nas pessoas e dominar a todos, são líderes por natureza, justos honestos e equilibrados, porém quando contrariados, ficam possuídos de ira violenta e incontrolável. Os filhos de Xangô são tidos como grandes conquistadores, são fortemente atraídos pelo sexo oposto e a conquista sexual assume papel importante em sua vida.
XANGÔ — Orixá dos Raios e Trovões !!!
Odùdùa, um guerreiro que vinha de uma cidade do Leste, invadiu com seu exército a capital do povo chamado Ifé. Esta cidade depois se chamou Ifé, quando Odùdùa se tornou seu governante.


Odùdùa tinha um filho chamado Acambi e Acambi teve sete filhos e seus filhos ou netos foram reis de cidades importantes. A primeira filha deu-lhe um neto que governou Egbá, a segunda foi mãe do Alaketo, o rei de Keto, o terceiro filho foi coroado rei da cidade de Benim, o quarto foi Orungã, que veio a ser rei de Ilê Ifé, o quinto filho foi soberano de Xabes, o sexto, rei de Popôs, e o sétimo foi Oraniã, que foi rei de Oyó.

Esses príncipes eram vassalos do rei de Ilê Ifé, que então se transformou no centro de um grande império, cujo nome era Oyó. Odùdùa era o grande rei de Oyó. Ele unificou as mais importantes cidades daquela região, mais tarde conhecida como sendo a terra dos yorubás. Em cada cidade ele pôs no trono um parente seu.

Ele foi o grande soberano dos reinos yorubás. Ele foi chamado o primeiro Alafim, o rei de Oyó. Quando Odùdùa morreu, os príncipes fizeram a partilha dos bens do rei entre si e Acambi ficou como regente do império até sua morte, nunca tendo sido, contudo, coroado rei do império. Nunca lhe foi atribuído o título de Alafim.

Com a morte de Acambi, foi feito rei Oraniã, o mais jovem dos príncipes do império, que tinha se tornado um homem rico e poderoso. A ancestral Ilé Ifé era a capital dessa vasta região conhecida como Oyó. O Alafim Oraniã foi um grande conquistador e solidificou o poderio de Oyó.

Um dia Oraniã levou seus exércitos para combater o povo que habitava uma região a leste de seu império. Era uma guerra muito difícil, mas, antes de ganhar a guerra, o oráculo o aconselhou a estacionar com os seus homens, pois ali ele haveria de muito prosperar. Assim foi feito e aquele acampamento a leste de Ilé Ifé tornou-se uma cidade poderosa.

Essa próspera povoação foi chamada cidade de Oyó e veio a ser a grande capital do império fundado por Odùdùa. Com a morte de Oraniã, seu filho Ajacá foi coroado terceiro Alafim de Oyó. Ajacá, que tinha o apelido de Dadá por causa de seu cabelo encaracolado, era um homem pacato e sensível, com pouca habilidade e nenhum tino para governar.

Dadá-Ajacá tinha um irmão que fora criado na terra dos nupes, um povo vizinho dos yorubás, filho de Oraniã com a princesa Iamassê, embora haja quem diga que a mãe dele foi Torossi, filha de Elempê, o rei dos nupes, também chamados tapas. Esse filho de Oraniã era Xangô, grande guerreiro, que fundara uma pequena cidade chamada Cossô, nas cercanias da capital Oyó.

Xangô, que era o rei de Cossô, uma cidade tributária de Oyó, um dia destronou o irmão Ajacá-Dadá, e o exilou como rei de uma pequena cidade, onde usava uma pequena coroa de búzios, chamada coroa de Baiani. Xangô foi assim coroado o quarto Alafim de Oyó, governando o império de Odùdùa e Oraniã por sete anos.

Umbanda e o amor a São Francisco

 



Esta oração esta para nós Umbandistas, como uma lição de um homem que buscou servir a todos e também a humanidade, aprendemos com ela todos os dias em busca do amor e da fraternidade, por isso amamos este servo de Deus.

ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz !
Onde houver ódio, que eu leve o amor
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão
Onde houver discórdia, que eu leve a união
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé
Onde houver erro, que eu leve a verdade
Onde houver desespero, que eu leve a esperança
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Mestre, fazei que eu procure mais
consolar que ser consolado
compreender que ser compreendido
amar que ser amado

Pois é dando que se recebe
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se vive para a VIDA ETERNA !

O Cântico do Irmão Sol

São Francisco compôs o Cântico do Irmão Sol.
Até o fim da vida, queria ver o mundo inteiro num estado de exaltação e louvor a Deus.

No outono de 1225, enfraquecido pelos estigmas e enfermidades, ele se retirou para São Damião. Quase cego, sozinho numa cabana de palha, em estado febril e atormentado pelos ratos, deixou para a humanidade este canto de amor ao Pai de toda a criação.

A penúltima estrofe, que exalta o perdão e a paz, foi composta em julho de 1226, no palácio episcopal de Assis, para pôr fim a uma desavença entre o bispo e o prefeito da cidade. Estes poucos versos bastaram para impedir a guerra civil. A última estrofe, que acolhe a morte, foi composta no começo de outubro de 1226.

A oração do santo diante do crucifixo de São Damião e o Cântico do Sol são as únicas obras de São Francisco escritas em italiano antigo e, por isso, são dos mais importantes documentos literários da linguagem popular. Foi nesta língua que ele, certamente, ditou a maioria dos seus escritos, antes que os irmãos versados em letras os traduzissem para a língua comum da época, o latim.

O Cântico do Irmão Sol

Altíssimo, onipotente, bom Senhor
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a benção.

Só a ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De te mencionar

Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o senhor irmão Sol,
Que clareia o dia E com sua luz nos alumia.

E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo, é a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste as claras
E preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo,
Pelo qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor
Pela irmã Água,
Que é muito útil e humilde
E preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Fogo
Pelo qual iluminas a noite,
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a mãe Terra,
Que nos sustenta e governa
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e tribulações.

Bem-aventurados os que as sustentam em paz,
Que por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a Morte corporal,

Da qual homem algum pode escapar.
Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes à tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!

Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande humildade.

A Benção de São Francisco

"O Senhor te abençoe e te proteja. Mostre a sua face e se compadeça de ti. Volva a ti o seu rosto e te dê a paz"

Saudação à Mãe de Deus

Salve, ó senhora, Rainha santa, Mãe santa de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita Igreja, e escolhida pelo santíssimo Pai celestial, que vos consagrou com seu santíssimo e dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito! Em vós residiu e reside toda a plenitude da graça e todo o bem! Salve, ó palácio do Senhor! Salve, ó tabernáculo do Senhor! Salve, ó morada do Senhor! Salve, ó manto do Senhor! Salve, ó serva do Senhor! Salve, ó Mãe do Senhor, e salve vós todas, ó santas virtudes derramadas, pela graça e iluminação do Espírito Santo, nos corações dos fiéis, transformando-os de infiéis em (servos) fiéis de Deus

REZA REZANDO, REZADOR! Tua Fé é teu Agir!

 
Axé turma! A oração que quero compartilhar com vocês hoje é muito significativa para mim pois entendo que as palavras mencionadas ao verbalizá-la sejam a perfeita expressão do que é “Ser Médium”.
Aliás, em um momento em que uma boa parcela dos médiuns estão ‘vestindo seus brancos’ pensando em recompensas materiais ou emocionais, em barganhar seus dons, em estipular condições e esperando estar com vontade ou disposição para cumprir suas missões, acredito que essa oração seja o maior e o melhor ensinamento sobre o que É Ser Médium.
Mesmo porque ser médium não é apenas incorporar.
Ser médium é fazer o Bem verdadeiramente e plenamente. Ser médium é ser Bom verdadeiramente e plenamente. É ser Verdadeiro e Pleno com o Bem e com o Bom.
Ser médium é estar onde se precisa, é consolar, compreender, amar e perdoar.
Ser médium é ser um instrumento de Paz, um mensageiro do Alto, um exemplo de Fé e um guerreiro a favor da CRENÇA.
Enfim, Ser Médium é entender a vida eterna em qualquer lugar, a qualquer momento, através de qualquer cor e independente de qualquer condição e por esse entender Fazer e Viver.
Espero que todos aproveitem bem e que reflitam sobre suas verdadeiras missões mantendo as frases dessa oração interiorizada em vossos íntimos e manifestada diariamente em qualquer lugar, qualquer hora e em qualquer situação.

Oração São Francisco

Senhor, fazei-me instrumento de Vossa Paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvida, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver despero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre,fazei que eu procure mais,
Consolar,que ser consolado;
Compreender, que ser compreendido;
Amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
É perdoando que se é perdoado,
E é morrendo que se vive para a Vida Eterna.

Escrito por Mãe Mônica Caraccio
Fonte: Minha Umbanda

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A IDENTIFICAÇÃO DE SANTO ANTÔNIO

 




A IDENTIFICAÇÃO DE SANTO ANTÔNIO
NOS CULTOS AFRO-BRASILEIROS:

Senhoras e Senhores,


Vamos tratar de um assunto bem complicado que implica conhecimentos da história da Igreja no Brasil, dos cultos afro-brasileiros e das tradições orais oriundas de Portugal. De antemão, peço desculpas pela inevitável simplificação em algumas partes.


1. Olhamos um pouco Santo Antônio na religiosidade popular brasileira. Entre as muitas manifestações de devoção antoniana nos limitamos principalmente àquelas necessárias para entender o Santo Antônio identificado nos cultos afro-brasileiros.

2. Depois vamos tratar de alguns elementos da história dos 500 anos da evangelização no Brasil. Concordamos com o teólogo José Comblin que não foi por padres e missionários que o povo brasileiro se tornou católico.

3. Em seguida, destacamos a devoção de Santo Antônio nas tradições dos negros bantos: no jongo, no caxambu, no congado.

4. A parte mais típica será: A identificação de Santo Antônio no tambor-de-mina, no xangô, na umbanda, no candomblé e no batuque.

5. Tentamos definir a identificação. E para isso refletimos um pouco sobre imposição e integração.

6. No fim apresentamos algumas pistas para a reflexão: A presença de um santo na vida dos pobres; Inculturação, um processo de baixo para cima, isto é, a partir do próprio negro; O valor da mitologia; Igreja, uma nova união na diversidade.

7. Conclusão.




O cristianismo que nos chegou de Portugal era guerreiro. Justamente em 1500, quando Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, deu-se na península ibérica a última batalha contra os mouros na reconquista de Granada pela qual os cristãos puseram fim a sete séculos de dominação árabe. Até hoje, as lutas entre cristãos e mouros estão presentes na cultura popular brasileira de muitos modos. Além disso, o cristianismo de toda a Europa era guerreiro por causa das cruzadas. Havia santos guerreiros: São Sebastião, São Jorge, Nossa Senhora da Conceição. Santo Antônio ainda é conhecido no Brasil como Santo Antônio militar. A ele são atribuídas vitórias milagrosas contra os invasores calvinistas holandeses e contra os huguenotes franceses em Salvador(1595), contra os franceses no Rio de Janeiro(1567 e 1710) ou contra os espanhóis na Colônia de Sacramento(1703). Sua imagem no andor era levada pelo exército aos campos de batalha, bem assim como os judeus carregavam a arca da aliança na conquista de Jericó e de toda a Terra Santa. Em lugares diferentes recebeu títulos militares, de soldado raso a coronel do Exército brasileiro e nos respectivos santuários recebia também seu soldo, por exemplo Santo Antônio do Relento. Trata-se da imagem(1621) de Santo Antônio de Lisboa, do convento franciscano no Largo do Carioca, no Rio de Janeiro. Quando, em 1710, os franceses invadiram a cidade, a imagem do taumaturgo foi colocada à frente da igreja no relento com o bastão de general na mão e com o rosto virado para o combate. A vitória sobre os franceses foi atribuída ao santo protetor das armas portuguesas. No dia 18 de setembro de 1710, Santo Antônio do Relento ganhou a patente de Capitão de Infantaria em um dos Terços da Guarnição do Rio de Janeiro, com o soldo de 40 cruzados mensais. Mais tarde foi promovido por D.João VI a Sargento-mor da Infantaria(1810) e a Tenente-Coronel(1814).

Além da memória de Santo Antônio militar, santo da corte e do exército de Portugal, existem no Brasil: o pão de Sto.Antônio, a devoção mensal nos dias treze, as preces para encontrar objetos perdidos, as cartinhas para Santo Antônio e os recados do Santo para nós, as promessas a Santo Antônio Casamenteiro, a alegria das festas juninas e vários santuários.

Fato é que os colonizadores com seu cristianismo guerreiro não admitiam nenhuma religião, nenhuma devoção que não fosse a dos portugueses. Antes de serem embarcados para o Brasil, os escravos negros eram marcados com ferro em brasa, prova do pagamento do imposto real, e batizados com o sinal da cruz . As relações entre a Igreja e o Estado era regidas pelo sistema do Padroado como veremos mais logo. Havia poucos padres no Brasil e seu trabalho era principalmente na corte, nas universidades e na organização das infra-estruturas da própria igreja. A maioria dos portugueses viviam um cristianismo de tradição oral. Além das festas natalinas, a Semana Santa e as festas dos padroeiros, havia os autos, folias, procissões, benditos, benzeções, provérbios. Era uma religião integrada à vida cotidiana, sem o moralismo da Igreja da Contra-reforma que estava nascendo e se fortalecendo na Europa onde estas tradições populares já estavam sendo marginalizadas. Importante é observar que existia uma certa semelhança entre negros, caboclos e brancos pobres nas suas religiões quando não separavam vida e religião. Exatamente isso causaria aproximação e integração.

O Santo Antônio da tradição dos pobres até hoje ajuda os vaqueiros para conduzir o gado. Contam que o próprio santo era amansador de burro bravo. Manoel Ferreira dos Santos explica: Santo Antônio, no tempo que ele era homem, ele andava no mundo como nós mesmo. O emprego dele foi amansar burro. Ele era amansador de burro bravo, ele era peão. E por isso, ficou a oração dele.

Ele amansa também os homens. Tem a oração para apartar uma briga:

Santo Antônio de Guiné,/ Amansador de todo brabo./ Amansais fulano./ Que tá brabo, como o diabo.//

Ele é protetor contra o inimigo da alma pela tradicional bênção de Santo Antônio "Fugi partes contrárias. Venceu o Leão de Judá!" O santo guerreiro do exército português, protege o pobre contra a polícia, contra ladrão e assaltante. Há pessoas que cortam a pele no braço ou nas costas para costurar dentro da carne um minúsculo Santo Antoninho de metal para obter sua proteção contra os inimigos e fechar o corpo para nenhum mal entrar. Dizem: Fulano tem Santo Antônio enterrado no corpo. Em algumas ocasiões, a faca de ponta é chamada "espinho de Santo Antônio". Uma oração contra arma de fogo diz:

Hoje faz noventa dias/ Que eu rezei a Salve Rainha./ Entre o cão e a espoleta(peças da arma)/ Está sentado Santo Antônio e a Virgem Maria.//

As orações contra os inimigos e para fechar o corpo não são exclusividade de Santo Antônio. Há outras dirigidas a Maria, aos doze apóstolos, a São João Batista, São Jorge, Santa Catarina, São Manso e São Marco, São Sebastião e à Virgem Santa Clotilde. São rezados o Salmo 90 e o Credo em cruz. Nestas orações encontramos expressões como: Jesus adiante e paz na guia; o sangue de Jesus (ou: o leite de Nossa Senhora) derramado sobre mim; a cruz de Jesus sobre mim; coberto com as 5 chagas; trancado com a chave do sacrário; coberto com o manto de nossa Sra; fechado no ventre de N.Sra ou na barquinha de Noé.

Santo Antônio resolve muitos problemas. Tem histórias que contam que o Santo livrou da forca o seu pai inocente. O mesmo consta em um dos benditos de S.Antônio:

Socorro Antônio socorro/ Socorro no continente/ Vem tirar seu pai da forca/ Que ele vai morrer inocente.// - Levanta corpo morto/ Pelo um Deus que nos criou/ Diga por sua boca/ Se este homem me matou.// Este homem não me matou/ Nem por mim ele pecou/ Antes na hora da minha morte/ Ele me ajudou.// Me diga padre mestre/ Onde é sua morada/ Mesmo que não posso ir lá/ Mas mando lhe visitar.// Sinto muito de meu pai/ De não ser meu conhecido/ Me chamo Antônio Fernandes/ Que de vós eu fui nascido.// De meu pai não quero nada/ Só quero a vossa bênção/ Vou me embora pra Itália/ Terminar com meu sermão.//


Às vezes, ele entra na vida das pessoas disfarçado como um menino ou um velho. Ajuda os pobres e prejudica o rico. Mas é preciso ter cuidado com ele. Ninguém engana Sto.Antônio! Ele é malino. Pode dar um namorado, mas depois faz o casal brigar. Ele faz cobrança das promessas feitas pelos seus devotos. Disso fala a história do Castigo de Cisalpino:

Cisalpino morava em Araçuaí. Certa ocasião ele começou a trabalhar na lavra(mineiração de pedras preciosas) e estava tendo sucesso. Então para o negócio melhorar mais, ele fez uma promessa com Santo Antônio que, se daquela vez ele tirasse bastante pedras, partiria a metade com ele. Deu tudo certo. Ele tirou um balaio de pedras e tratou logo de ir embora.

Chegando aqui ele foi parar na igreja. Chegou, ajoelhou-se diante da imagem do santo.Dizem que ele foi falando em voz alta, e pessoas que estavam por lá estranharam o caso: "Ó Santo Antônio! Essa vez eu num dou vós não. Numa outra eu dou. Ah! o senhor não come e nem nada..."Voltou pra casa todo feliz.

Num foi nada não. As pedras importavam em 60 contos naquele tempo e ele mandou o sócio dele vender as pedras fora. Até hoje ele não voltou. Foi homem e balaio com pedras para sempre, sem glória, amém.

Cisalpino adoeceu e ficou impressionado com essas pedras até que Deus o chamou.



HISTÓRIA DOS 500 ANOS
DA EVANGELIZAÇÃO NO BRASIL

O cristianismo que veio da Europa foi imposto aos brasileiros, tanto no tempo da Colônia, pela cristandade portuguesa, como no tempo da Independência e da República, pelo sistema tridentino da romanização. Vejamos:

A partir do séc.XIII, existia na península ibérica o Padroado que é um sistema de alianças entre o Estado e a Igreja. Incorporado às três ordens militares de Cristo, Santiago e São Bento de Aviz, o rei era o chefe dos assuntos religiosos no seu reino pela bula "Praeclara Charissimi"(Papa Júlio III,1551). Especificamente pelo título de Grão-mestre da Ordem de Cristo, os reis de Portugal passaram a exercer nas colônias o pleno domínio político e religioso, mesmo no período da Independência. Por causa disso, a Igreja não tinha autonomia. Por exemplo: o rei tinha o direito de nomear e transferir bispos e padres. Aprovava ou não os documentos vindos de Roma. Portugal era um país sem protestantes e as reformas tridentinas não interessavam aos portugueses. Havia pouquíssimas paróquias e o clero local não tinha poder. No Brasil surgiu uma igreja organizada por irmandades de leigos brancos e negros em que o padre era capelão. As tradições orais eram importantes. As irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos compravam a liberdade de seus associados e garantiam uma relativa independência também cultural. Com o fim da monarquia, no século passado, acabou o padroado no País. Fato é que, para os índios e para os negros, a religião e a colonização chegaram juntas.

A Constituição Republicana separou Igreja e Estado e obrigou a Igreja a ser uma igreja de "poder espiritual". Foi então que trouxeram e copiaram a igreja católica da Contra-reforma num Brasil onde não houve a Reforma(protestante). A nova Igreja era baseada no sistema de paróquias com o poder centralizado na mão dos padres e impôs ao povo brasileiro a cultura católica da Europa. O sistema eclesial baseado na atuação dos leigos nas irmandades foi eliminado. Este episódio é chamado de "romanização". O negro para ser cristão havia de deixar de ser negro simplesmente. Não havia lugar para a memória da África nem da escravidão. Os tambores passaram a ser proibidos no recinto da igreja e os reinados de Nossa Senhora do Rosário eram considerados uma brincadeira de mau gosto. Sobretudo a experiência religiosa dos ex-escravos não tinha vez. Estas coisas se tornam mais absurdas quando lembramos que quase a metade da população brasileira é negra.

Depois do Concílio Vat.II, surgiu um clima diferente que através das reuniões dos bispos latino-americanos em Medellim, Puebla e Santo Domingos veio chamar a nossa atenção pela pobreza do povo, pela religiosidade popular e pela inculturação.


A DEVOÇÃO DE SANTO ANTÔNIO
NAS TRADIÇÕES BANTOS DO BRASIL

As manifestações culturais dos negros bantos(originárias das colônias portuguesas de Congo, Guiné, Angola e Moçambique) são bem parecidas com o cristianismo e facilitaram a aproximação:

No caxambu, jongo, susa, sairé, Santo Antônio é festejado nas fogueiras das festas juninas. Naquele momento, juntam-se danças, cantos, tambores de origem africana a elementos religiosos da tradição oral portuguesa.

No congado, nas festas e nos reinados de Nossa Senhora do Rosário em maio, agosto e outubro, notamos a presença da devoção antoniana em alguns cantos. O senhor Waldomiro Gomes de Almeida, vice-presidente da Federação dos Congados de Nossa Senhora do Rosário, do Estado de Minas Gerais(1995) declara que, dentro da devoção ao rosário de Nossa Senhora, todos os santos são homenageados. Lembra até a existência em Belo Horizonte(MG) de uma guarda de Santo Antônio de Lisboa, no bairro Floramar fundada pelo saudoso Rei-Congo do Estado de MG, Raimundo Nonato. Também em Cordisburgo(MG), há uma Guarda de Marujos de Santo Antônio da Lagoa. Em diversas parte do interior de Minas Gerais as guardas levantam a bandeira de Santo Antônio. Além disso, há pessoas que fazem a promessa de ser rei de Santo Antônio. Também pode tratar-se do Santo Preto, Antônio de Catigeró, às vezes confundido com Sto.Antônio de Lisboa. Também as taieiras no Estado de Sergipe, reverenciam Santo Antônio.

Constatamos que os grupos acima de negros de cultura banto não se autodenominam de "cultos". Nas suas festas, Santo Antônio é celebrado, mas aparentemente não se verifica propriamente uma identificação do santo com alguma entidade religiosa banto.



Existem no Brasil manifestações diversas de cultura negra nagô/ioruba/jeje, originárias das regiões do Sudão, da Nigéria e de Daomé. Seus cultos conhecem mitologias elaboradas nas quais os orixás são uma espécie de divindades. Santo Antônio é identificado com vários orixás.

A cidade de Salvador(BA) foi a primeira capital do Brasil-Colônia. Afrânio Peixoto escreve sobre os sant'antônios da Bahia: "É o maior de todos os santos, portanto o maior dos portugueses e brasileiros. Particularmente honrado na Bahia. Temos Santo Antônio da Barra: fortaleza e energia. Temos Santo Antônio da Mouraria. Temos Santo Antônio de Além do Carmo. Na capital; no interior, tantos! No espaço; no tempo, Santo Antônio de Arguím, com a sua lenda." Santo Antônio "de Arguím", por ter destroçado uma armada francesa que veio para atacar a cidade no fim do século XVI, já foi padroeiro da Bahia. No candomblé nagô em Salvador(BA), Santo Antônio é identificado com o orixá Ogun que é filho de Oduduá, rei de Ifé. Ogun é um guerreiro poderoso e destemido. Seu símbolo é a espada. Ele vence as demandas. Seus rituais são realizados nas terças-feiras(!). A saudação típica, pronunciada pelos adeptos é "Ogunhê!" O filho de Ogun usa ao pescoço um colar de contas azuis. As roupas usadas pelo filho-de-santo em transe são a calça e saia azuis, a couraça, o capacete e a espada. Sua dança ritual parece um duelo de espada. Para vencer os obstáculos da vida, as pessoas buscam nele a força de quem molda o ferro. O "otá", a pedra onde foi assentado a força mística do orixá Ogun, é uma pedra de minério, ou pedaço de ferro. Abençoa principalmente os ferreiros e os que lidam com armas e ferramentas, os guerreiros e os agricultores. Seu fetiche é uma penca de instrumentos da lavoura em ferro. Ogun é o orixá que julga uma situação e fornece elementos para Xangô executar a justiça. É também chamado Ogun de Ronda. Como Senhor das Estradas, protege os viajantes. Tem grande afinidade com Exu com quem se encontra nas encruzilhadas. Algumas das comidas oferecidas a Ogun são a feijoada e inhame assado. (No candomblé Ketu: figado, coração e bofe de boi.) Animais sacrificados são o bode, o galo, o conquém. Muitos terreiros possuem uma bonita imagem de Santo Antônio. - Um exemplo de como se dá esta identificação dentro da igreja acontece todas as terças-feiras em Salvador na Bahia, no convento de Sto.Antônio. A este assunto voltaremos mais tarde quando falamos da identificação.

Nos terreiros iorubá do culto xangô no Estado de Pernambuco, Santo Antônio(com o livro na mão igual São Jerônimo) é identificado com Xangô, orixá do raio e da justiça, e com Aniflaquete, uma espécie de orixá(exu?) que chama os orixás da África para o Brasil.


No batuque do Rio Grande do Sul, é identificado com Exu, o anjo/mensageiro entre os Deuses e os homens. Exu abre caminhos e é encontrado nas encruzilhadas. Diversas orações tradicionais de Santo Antônio dizem: "Ele nos guia no bom caminho". Exu leva recados e dá recados, como Santo Antônio. Traz as respostas da adivinhação no jogo de Ifá. Sem Exu nada se pode fazer. Tanto protege como castiga, quando as pessoas não cumprem as obrigações. Isto nos lembra o Santo Antônio malino da fé dos pobres. Há outros cultos em que Exu, com sua roupa preta e vermelha e com seu tridente na mão, é identificado com o demônio, o anjo mau.

A umbanda é um conjunto de cultos que misturam elementos africanos dos nagôs e dos bantos, porque os negros trazidos da África não conseguiram reencontrar os companheiros das nações de origem.

Na umbanda, no Rio de Janeiro, Santo Antônio é identificado com Bará, um dos títulos de Exu ligado ao destino individual, e com Verequete, orixá do raio e que abre caminhos para os deuses do seu grupo. Há um ponto(canto) de abertura(próprio de Exu):

Santo Antônio é de ouro fino/ suspende a bandeira/ e vamos trabalhar.

Na umbanda de orientação espírita(desde 1930), distinguem-se sete linhas, cada uma dividida em 6 ou 7 falanges de espíritos iluminados. Santo Antônio faz parte da primeira linha que é de Oxalá(Jesus Cristo). Os chefes-guia de suas falanges são: Sto.Antônio, São Cosme e Damião, Sta.Rita, Sta.Catarina, Sto.Expedito, São Benedito o Preto e São Francisco de Assis. Os santos da linha de Oxalá, penetram nas linhas de quimbanda(magia negra) para desmanchar "trabalhos" feitos para prejudicar as pessoas. Isto fica claro num ponto(canto) de umbanda:

Ó viva Deus(3x), meu maior amigo é Deus./ Pisei na pedra, a pedra balançou./ O mundo estava torto,/ Santo Antônio endireitou.//

Existem na umbanda vários pontos de amarração. Por exemplo:

Santo Antônio é o Santo Maior/ Quem pode com ele é o Filho de Zâmbi/ Amarra e amarra, ó Santo Antônio/ Quem pode com ele é o Filho de Zâmbi.//

Outro ponto de amarração:

Caboclo da encruzilhada/ Santo Antônio ele é/ Amarrador de feiticeiro/ Com o cordão de sua fé.//

Os cantos de amarração podem indicar alguma magia do amor, do outro lado sugerem o estilo das rezas obrigativas e bravas da Quimbanda(magia negra).

Segundo alguns autores, Santo Antônio é identificado com Erekê, em cultos bantos de Guiné e Loanda.

E finalmente, na Casa das Minas em São Luiz no Estado do Maranhão, existia antigamente no dia 13 de junho uma festa para Toi-poliboji, vodu da falecida mãe Andresa. Toi-poliboji é identificado com Santo Antônio. Em outras casas, provavelmente não por acaso, Toi-poliboji é identificado com o demônio.

Observação:

É interessante observar que Ogun, em candomblés não-baianos e na umbanda, é identificado com São Jorge.

O orixá Xangô, na maior parte das vezes, é identificado com São Jerônimo.

Há grupos que identificam Exu-bara com São Pedro que com suas chaves abre as portas do destino. A umbanda costuma identificar Exu com o demônio.




A Bênção de Santo Antônio virou tradição especial em Salvador(BA) na igreja de São Francisco, no Terreiro(=Praça) de Jesus. Todas as terças-feiras, no final da missa, os frades dão a bênção com água benta e fazem uma distribuição de pão para os pobres nas escadarias da igreja. Entre os fiéis encontram-se muitos filhos-de-Ogun(do Candomblé) que com muita fé participam da solenidade. Depois, descem a Ladeira do Pelourinho, para começar a diversão noturna na praça. Há diversos frades que percebem a situação. Não gostam, mas não sabem que atitude tomar.

Também em Salvador(BA), realiza-se em janeiro a festa do Senhor do Bonfim(Jesus crucificado) num grande santuário(séc.XVIII), administrado pelos padres diocesanos. A festa demora dez dias e reúne seguramente umas 100 mil pessoas. O povo, vestido de branco(cor do orixá Oxalá), anda 10 km em procissão. As atividades religiosas podem ser compreendidas em três fases: lavagem das escadarias e do adro da Igreja pelas "baianas"(muitas são sacerdotisas no candomblé); culto ao Senhor do Bonfim por muitos identificado com Oxalá; festanças populares no Porto da Ribeira. Dependendo do bispo, a igreja tem se pronunciado contra a festa. Os redentoristas criticam o uso da roupas brancas nas missas e pedem o povo para não misturar as coisas. Nos movimentos negros modernos também encontramos lideranças que desejam separar candomblé e igreja e voltar às coisas como eram na África.

Para entender o cristianismo dos negros no Brasil e especialmente a identificação, temos de deter-nos um pouco no tema: imposição e integração.

Há dois aspectos nesta questão:

Quando os negros foram obrigados a confessar a religião dos portugueses, os santos da Igreja e do Governo foram colocados no lugar dos orixás para enganar as autoridades e celebrar os cultos proibidos.

Do outro lado, deu-se uma espécie de integração entre orixás e santos populares no livre encontro entre os pobres negros e brancos nas casas de tambor-de-mina, candomblé, xangô, batuque e umbanda. Afinal, o culto é lugar da liberdade. É o último reduto onde os escravos diante de seus Deuses guardavam a memória da África e da escravidão e os símbolos de dignidade e resistência: coroas, cetros, espadas, machados, arcos e flechas.

Esta liberdade é o elemento importante para entender a identificação como algo positivo. No Brasil, não somente os negros integraram elementos da cultura e da religião dos portugueses. Também a religião luso-brasileira integrou elementos africanos. Em outras palavras, há adeptos dos cultos que rezam nas igrejas e muitos católicos "praticantes" freqüentam as casas dos cultos afro-brasileiros.

Na identificação, não se trata simplesmente de trocar um santo por um orixá/vodu ou vice versa. O processo é bem mais complicado. É difícil distinguir qual é o santo popular e qual é o orixá. Nem sempre um orixá corresponde a um santo apenas. Por ex.: O orixá Xangô, rei de Oyó, senhor da justiça, e poderoso e violento dono dos raio e trovões, é identificado em março com São José, em junho com São João Batista e em setembro com São Jerônimo. Isto é, nos terreiros de umbanda. Além disso, nas casas do candomblé, um mesmo orixá pode apresentar-se com homem e como mulher, como acontece com Oxalá que é identificado com o Senhor Bom Jesus. Também pode chegar como um jovem ou como um velho. É o caso de Ogun Xoroquê, entidade que é Ogun durante seis meses do ano, e Exu(anjo mensageiro) nos outros seis meses.

Outro fator que deve ser levado em conta, é a figura do santo na religião católica dos pobres, no Brasil. Diferente da hagiografia moralista dos santos oficiais, o povo admira o santo pela sua esperteza, sua beleza e outras qualidades. Bem assim como faz a Bíblia, quando fala do patriarca Abraão na negociata com Javé antes do extermínio de Sodoma e Gomorra. Sua esperteza era motivo de orgulho para o judeu. Também a história do rei Davi que na sua idade avançada dormia com uma moça jovem é bonita. Ouçamos uma história do nosso Seráfico Pai São Francisco: Um dia estava São Francisco na sua casa comendo um pão. Aí ele sentiu a vontade de fazer as necessidades. Com pouco estava São Francisco no mato atrás de uma moita. Comia o pão, rezava, porque era santo, e ... cagava. O demônio viu tudo e resolveu fazer uma tentação ao santo. Chegou perto dele e disse: "Mas o senhor está fazendo muita coisa ao mesmo tempo. 'tá comendo, 'tá rezando e ..." - "Já sei!", disse São Francisco. "Mas o que tem? Estou comendo - é para mim. Estou rezando - é para Deus. Estou cagando - é para você!" Dizem que o demônio nunca mais voltou para atentar São Francisco. Outras histórias assim existem de Santo Antônio.

Portanto, na identificação, não se trata simplesmente de um santo oficial trocado por engano ou para escapar da imposição da religião oficial.

Talvez vale fazer uma comparação. No século IV, colocaram na festa romana do Sol Invicto no dia 25 de dezembro, o dia do Nascimento de Jesus Cristo, a Luz do Mundo. Será que houve uma identificação? Será que houve gente que integrou à revelação divina pelo Sol Invicto(romana) a revelação divina em Jesus (judaica). Afinal, para muitos o dia do sol (Sunday, Zondag, Sonntag) tornou-se o dia do Senhor.



Em meio à celebração histórica de Santo Antônio, somos confrontados com o Santo Antônio do mito. Tanto na religiosidade popular de origem portuguesa e vivida pelos pobres no Brasil, como nos cultos afro-brasileiros, encontramos um Santo Antônio que corresponde às necessidades atuais do povo mas que nem sempre coincide com o santo da história.

Em plena era de secularização, encontramos um santo presente na vida do pobre. Ele realiza milagres e castigos, abre caminhos, defende o povo contra os inimigos e tem a ver com justiça. Ele lida com o burro bravo e as vacas, e cuida da felicidade no casamento. Acha objetos perdidos e leva cartas a seu destino. Parece que a presença do santo na vida do branco português e a presença dos orixás e mesmo dos antepassados na vida do negro não são tão diferentes assim. Enquanto na igreja oficial a presença de Deus e do santo está em crise(nós mais falamos sobre Deus), o pobre fala com Deus e a linguagem dos cantos e das rezas é de encontrar, descer, baixar, vir com força.

A identificação de Santo Antônio com diversos orixás dos cultos afro-brasileiros nos desafia a refletir sobre assuntos como sincretismo e inculturação. O negro há de ser cristão sem deixar de ser negro. E nem Roma, nem tampouco o branco pode criar esta maneira própria de viver a religião. As comunidades negras são os protagonistas legítimos da busca desta nova fé cristã, a partir da experiência religiosa atual do negro e dos seus antepassados.

As maneiras diferentes de celebrar e pensar entre pobres e ricos, entre brancos e negros nos obrigam a imaginar a vivência da união na diversidade do povo de Deus; Há teólogos que propõem o termo "macro-ecumenismo"(não entre igrejas, mas entre culturas).

Motivos de crítica à igreja oficial são a hagiografia moralista, e a permanência de uma uniformidade cultural na liturgia, catequese e teologia. - Causas da distância entre o cristianismo oficial e outras religiões são o abandono dos nossos antepassados(as almas), a quase ausência do rosto feminino de Deus. Além disso, para nós, a revelação divina através da natureza(florestas, rios, pedras)ficou bastante esquecida, lembramo-nos principalmente da revelação através de Jesus Cristo. Todas estas coisas causam preconceitos e dificultam a compreensão.




Santo Antônio, guerreiro do tempo colonial, e principalmente na sua forma popular de companheiro dos pobres na luta pela sobrevivência, é identificado com o orixá guerreiro Ogun no candomblé da Bahia.

Santo Antônio que tirou seu pai da forca e defende os pobre contra os inimigos, é identificado com Xangô, orixá da justiça e do raio, nos terreiros do Estado de Pernambuco.

Santo Antônio, o mensageiro que, segundo a tradição oral, nos guia no bom caminho, é identificado com Exu, Senhor do destino e das encruzilhadas.


Palestra de Frei Francisco van der Poel ofm,
no Oitavo Centenário do Nascimento de Santo Antônio
21 de outubro de 1995 - Pádua, Itália.

sábado, 7 de maio de 2011

Defumação e Sincretismo

Defumação e Sincretismo (Matérias extraidas do Jornal de Umbanda Carismática - JUCA - edição XVII - Ano II - Janeiro de 2008)
Ninguém sabe quando a humanidade começou a usar as plantas aromáticas. Há evidência do período Neolítico de que ervas aromáticas eram usadas em culinária e medicina, e que ervas e flores eram enterradas com os mortos. A fumaça ou fumigação foram provavelmente um dos usos mais an¬tigos das plantas, como parte de ofe¬ren¬das rituais aos deuses. Gradual¬men¬te, um conjunto de conhecimentos sobre as plantas foi acumulado e passado a centenas de gerações de xamãs.

Egípcios: Inicialmente, sacerdo¬tes e sacerdotisas eram as únicas pes¬soas que tinham acesso a estas pre¬ciosas substâncias. Quando o Egito se fez um país forte, seus governantes importaram de terras distantes in¬censo, sândalo, mirra e canela. Os faraós se orgulhavam em ofe¬recer às deusas e aos deuses enormes quantidades de madeiras aromáticas, gomas, resi¬nas e perfumes de plantas, queimando mi¬lha¬res de caixas desses materiais pre¬ciosos. Todas as manhãs as estátuas eram untadas pelos sacerdotes com óleos aromáticos. Queimava-se muito incenso nas cerimônias do templo, durante a coroação dos faraós e ri¬tuais religiosos. Queimavam-se também em enterros, para neutralizar odores e afugentar maus espíritos.

Sumérios e Babilônios: Os Sumérios ofereciam bagas de junípero como incenso à deusa Inanna. Mais tarde os babilônios continuaram um ritual queimando esse suave aroma nos altares de Ishtar. Acreditava-se que a direção que a fumaça levantava deter¬minaria o futuro, se a fumaça movia-se para a direita o êxito era a resposta, se movesse para a esquerda a res¬posta era o fracasso.

Hindus e Budistas: A Aromate¬rapia tem sido uma parte essencial do ritual religioso Hindu desde o tempo dos Vedas, cuja idade pode ser estimada em 5.000 a.C. O incenso favorece um estado meditativo, por isso ele também foi incorporado pelos budistas, que são naturalmente avessos a rituais ex¬ternos. É usado na iniciação de Lamas e Monges, e é oferecido aos bons espíritos nos cultos diários.

Gregos e Romanos
Estes povos acreditavam que as plantas aromáticas procediam dos deuses e deusas. Queimavam o incenso como obrigação e para proteção das casas. Em Roma usava-se nas ruas e em especial na adoração do Imperador. O povo chegou a consumir tantos materiais aromáticos que no ano de 565 foi decretada uma lei que proibia utilizar essências aromáticas pelas pessoas, com temor de não se ter suficiente incenso para queimar nos altares das divindades.

Nativos Americanos: Os nati¬vos americanos vivem em harmonia com a terra, reverenciam-na como geradora de vida. Desde muito eles conhecem as propriedades de cura das plantas de poder, usadas em ten¬das de suor, dança do tambor, etc. Quei¬mam-se sálvia branca, cedro, pinho e resinas para limpeza de objetos de poder e rituais de adoração. São usadas para a saúde e o bem-estar da tribo. Na América do sul resina aromática de copal é oferecida ainda hoje pelos descendentes Maias e Astecas para suas divindades ancestrais.

Judeus: De acordo com o Zohar (livro sagrado para os judeus caba¬listas), oferecer incenso é a parte mais preciosa do serviço do Templo para os olhos de Deus. A honra de conduzir este serviço é permitida somente uma única vez na vida. Diz-se que quem teve o privilégio de oferecer o incenso está recompensado pela sorte com riqueza e prosperidade para sempre, neste mundo e no seguinte.

Católicos: Como esquecer a história maravilhosa dos três Reis Ma¬gos, que presentearam com o Líbano e a Mirra o Mestre Jesus, quando ele nasceu? Essas resinas aromáticas são presentes mágicos, incensos de al¬ta importância e fragrância. Em várias igrejas católicas, misturas de incensos contendo resinas de Líbano e Mirra são queimadas durante os rituais.

A fumaça aromática
Hoje se percebe um aumento do in¬teresse pelos incensos naturais de antigamente, e isso se deve ao fato que queremos que nossa casa seja um lugar mais aconchegante, convidativo e mais agradável.
A fumaça que sai do incenso é usada para santificar, purificar ou abençoar, e acredita-se que a fumaça é o mensageiro para o reino dos céus. Nossos ancestrais faziam uso de incensos em suas casas porque pensavam que podiam protegê-los das pragas e doenças. Essa teoria possui alguma verdade: incensos feitos de ervas, incluindo tomilho e capim limão, há muito são usados por suas proprie¬dades anti-sépticas e curativas. Estas e outras ervas eram queimadas em quartos de doentes, em hospitais, antes da descoberta dos antibióticos. Quando queimamos incensos naturais, molé¬culas de óleos essenciais são soltas no ar. Então elas acham seu próprio caminho, pelo sistema olfativo ou pelos poros da pele, e atuam no cérebro, onde se processa efeitos químicos que podem mudar seu ânimo, evocar boas memórias e lembranças. Essa fumaça aromática pode relaxar, estimular e aumentar nossa energia, nos levando para um momento de paz e tranqüi¬lidade.

Umbanda
A defumação é essencial para qualquer trabalho num terreiro de Umbanda, bem como nos ambientes domésticos. Este ritual é praticado com o objetivo de purificar o ambiente (terreiro/residência), bem como o corpo do médium e a assistência (pessoas que irão participar da gira), retirando as energias negativas e preparando o local para que a gira possa ocorrer em harmonia.
Para fazer uma defumação correta só precisa de carvão em brasa, dentro de um turíbulo (incensório pequeno, geralmente feito de barro). Jogue as ervas secas dentro (ou na parte de cima, dependendo do modelo de incensório) e vá defumando toda a casa. Se for para limpeza espiritual, defume sempre de dentro para fora, se for para atrair bons fluidos e dinheiro, defume de fora para dentro.

Um saravá amigo.
Octavio
www.maeyemanjaebaianozeferino.com.br

Sincretismo

Muitos irmãos umbandistas não conseguem retirar o sincretismo do ritual realizado em suas casas. Percebemos a luta incansável dos afro-brasileiros, lutando para valorizar suas origens longínquas. As raízes africanas que utilizaram do artifício associação ou sincretismo, dos santos católicos com seus Orixás, para que pudessem reverenciar suas forças ancestrais, sem repressão. Os séculos de reforço se acomodaram na transmissão oral, e de repente os brancos entraram nos terreiros. As imagens dos santos retiravam o sentimento de culpa, ou davam a tranqüilidade de serem cristãos. Os cristãos que tal quais os negros freqüentavam a igreja e os terreiros, com nenhuma restrição. A igreja era o grande símbolo de aceitação social, e até mesmo questão de sobrevivência. Quantos questionários de admissão para escolas e empresas, continham um quesito religião? Ninguém nem ousava colocar kardecista, o espiritismo da elite, todos eram católicos de batismo.
Ainda hoje muitos praticantes dos cultos afro-brasileiros cultivam esse mesmo preconceito. Os irmãos trabalhadores do candomblé que agridem verbalmente, ou moralmente, os praticantes umbandistas. Nesses tempos de liberdade de expressão, abusam-se dos ataques entre as diferentes concepções. Carregam bandeiras de pureza de culto e unificação dos rituais. Personalizar os altares para se diferenciar por categoria. Os debates devem ser voltados para se conhecer as diferenças, conviver com revelações de tantos cultos e manifestações que tanto eram escondidos.
Estamos num túnel de transição, sentimos o frio da distância da Luz Divina. Muito se esquece que a Umbanda não é patrimônio a ser repartido entre os herdeiros. A evolução da humanidade reside no principio maior da ligação fraterna, apesar de diferente.
Mesmo que seja difícil, a procura pela tolerância deveria ser constante. A Umbanda é brasileira, mas os espíritos que participam dos rituais, são de todos os cantos do mundo, e quem sabe de outros pontos do universo. Os santos, Orixás, anjos e devas, são nomes oriundos de diversas concepções, nem por isso são patrimônios ou propriedades de ninguém. Nomes não importam quando se pratica o que se aprende. Rótulos só precisam ser colocados nos venenos das discórdias.

Texto Mãe Bebel
http://www.maeyemanjaebaianozeferino.com.br/






Um saravá amigo.

Octavio



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Postagens populares

“A Umbanda não é responsável pelos absurdos praticados em seu nome, assim como Jesus Cristo não é responsável pelos absurdos que foram e que são praticados em Seu nome e em nome de seu Evangelho.”


SIGNIFICADOS QUANTO AO FORMATO DA VELA



 
Cones ou Triangulares: equilíbrio, elevação.
Quadradas: estabilidade, matéria.
Estrela: espiritual, carma.
Pirâmide: realizações matérias.
Cilíndricas: servem para tudo.
Animais: para o seu animal protetor.
Lua: para acentuar sua energia intuitiva.
Gnomo: para seu elemental da terra.
Cone ou Triangulares: simbolizam o equilíbrio. Tem três planos: físico, emocional e espiritual.
Velas Cônicas: são voltadas para cima e significam o desejo de elevação do homem, sua comunicação com o cosmos.
Velas Quadradas: Simbolizam estabilidade na matéria. Seus lados iguais representam os quatro elementos: Terra, Água, Fogo, Ar.
Velas em Formato de Estrela de Cinco Pontas: É o símbolo do homem preso na matéria. Representa o carma.
Velas Redondas: Simbolizam mudança. E a energia mais pura do astral que só a mente superior alcança.